Maria AUSILIATRICE

Maria AUSILIATRICE

venerdì 12 febbraio 2016

“Maria, Mulher peregrina que caminha guiada pelo Espírito Santo”.

“Maria, Mulher peregrina que caminha guiada pelo Espírito Santo”.
Maria ícone da Igreja peregrina
 


Ir. Maria Ko Ha Fong

Na narrativa dos evangelhos uma das caraterísticas de Jesus nitidamente percetíveis é o seu estar «a caminho». Ele nasce na viagem, como recém-nascido tem de viajar para se refugiar num país estrangeiro, durante a sua vida pública desloca-se a um ritmo permanente, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, dos lugares desertos para as praças, de casa para a sinagoga, da estrada para o campo, da beira-mar para a montanha: quando se aproxima «a hora de passar deste mundo para o Pai» (Jo 13,1), toma a firme decisão de se pôr a caminho de Jerusalém» (Lc 9,51). Por fim, morre fora de casa, a terminar uma via crucis. Ele mesmo é «o caminho» (Jo 14,6). Com um «segue-Me» envolve muitos a pôr-se a caminho juntamente com Ele: mesmo depois da sua morte, os seus discípulos são conhecidos como «os da via» (At 9,2). Pedro captou bem a identidade do Mestre quando o anuncia com esta frase sintética: «Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, o qual andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos» (At 10,38). A imagem que fascinou os primeiros convertidos ao cristianismo é a de Jesus que caminha conduzido pelo Espírito e fazendo bem por onde passa.

A sua mãe assemelha-se a Ele nisto. A imagem de Maria a caminho emerge com nitidez nos evangelhos e foi sempre rica de reflexão ao longo da história da Igreja. Maria encontra-se com frequência a caminho: sai, caminha, desloca-se mais do que as mulheres do seu tempo. As suas viagens entre Nazaré, Ain Karim, Belém, Jerusalém, Egito são acompanhadas de um dinamismo interior muito intenso. Toda a sua vida é um caminho, uma «peregrinação da fé» (Lumen Gentium 58). A mariologia conciliar realça esta «peregrinação» de Maria, vendo nela um modelo permanente para toda a Igreja. Não só. Maria mesma é caminho, caminho que conduz a Cristo, caminho que conduz «ao Caminho». É a Odighitria, aquela que indica o caminho, tal como bem a representa a iconografia. Queremos seguir esta «peregrinação» de Maria nas pegadas que os evangelhos nos oferecem.

A Bíblia é um livro cheio de caminhos e de viagens, a história entre Deus e a humanidade é um entrelaçado dinâmico entre sair e chegar, ir e vir, partir e voltar, entre êxodo e advento. O caminhar de Maria insere-se neste movimento, neste sistema de encontro divino-humano, sempre aberto ao imprevisto, à surpresa e à novidade, mas sempre guiado pelo vento do Espírito. Efetivamente, a narrativa evangélica sobre Maria começa na pequena localidade de Nazaré e termina na cidade de Jerusalém. Ambos os lugares são como que uma fresta onde a terra se abre para o céu, como trampolim de lançamento onde a casa abre de par em par a porta para um caminho. Em ambos irrompe o «poder do Altíssimo». Na primeira o Espírito desce silenciosamente como «sombra que cobre» (Lc 1,35), na segunda o mesmo Espírito torna-se presente através de um «ruído semelhante ao de forte rajada de vento» (At 2,1). Há uma espécie de «inclusão pneumatológica» maravilhosa. De um até ao outro lugar desenrola-se a grande aventura não só de Maria, mas de toda a humanidade que caminha ao encontro de um Deus surpreendente.

Sabemos que nos evangelhos as passagens explícitas concernentes à mãe de Jesus são poucas, e as suas palavras reportadas são ainda mais escassas, apenas seis: à exceção do cântico do Magnificat, as suas palavras limitam-se a uma frase. No entanto, são textos de extraordinária densidade e situados em pontos cardeais da história da salvação. A imagem bíblica de Maria, para mim que sou chinesa, tem algo de semelhante a uma pintura na seda, com estas caraterísticas típicas: poucas pinceladas, muito espaço em branco, cores ténues, contornos não totalmente definidos, sujeitos simples e despretensiosos, atmosfera de silêncio sagrado. As poucas pinceladas caem harmoniosamente em lugares apropriados e jorram energias; graças a elas, também o espaço em branco se torna denso de significado. O todo convida a transcender, a lançar-se para o infinito, a sondar o mistério, a fazer experiência do além, a espraiar-se no belo. As poucas passagens evangélicas sobre Maria formam, com o muito espaço em branco que as circunda, um todo harmonioso, dinâmico, fascinante. De Maria numquam satis: não só o falar de Maria é inexaurível, mas também a contemplação dos poucos traços evangélicos sobre Maria nunca tem fim. As reflexões que aqui proponho são fruto de uma das infinitas contemplações desta belíssima obra-prima do Senhor, uma contemplação da qual transparece um pouco do olhar feminino e asiático, e muito, como espero, do coração salesiano. Estão articulados em sete pontos.



1. Do «quomodo fiet» ao «fiat»

Contemplemos Maria no momento em que de improviso recebe o anúncio do anjo. À mensagem surpreendente de Gabriel a resposta de Maria não surge de modo instantâneo e irrefletido. A sua primeira reação é de perturbação, típica de quem tem consciência de se encontrar perante algo que o transcende infinitamente, uma novidade inesperada cujo sentido não consegue captar logo. Trata-se de uma dúvida proveniente não da incredulidade, mas da estupefação perante a desproporção entre a grandeza da proposta e a limitação efetiva da capacidade de realização. É a atitude da pessoa humilde e reflexiva, isto é, de quem está consciente da sua pequenez e se abeira do mistério com timidez e discrição, atento a penetrar-lhe o sentido. É o sentimento do pobre que sabe deslumbrar-se perante os dons gratuitos.
A segunda reação de Maria é uma objeção. Maria pede luz: Quomodo fiet istud? («Como será isto?») e manifesta o dilema do seu querer consentir, mas não saber como. Ela pergunta a Deus o que deverá fazer para estar em condições de obedecer. O espírito de Maria é como o do salmista quando suplica a Deus dizendo: «Faz-me compreender o caminho dos teus preceitos para meditar nas tuas maravilhas» (Sal 119,27).

Depois de o anjo lhe ter assegurado que é o Espírito que ultrapassa a sua pequenez, potenciando-a e embelezando-a, Maria aceita com plena disponibilidade, passando assim do quomodo fiet, «como será isso», ao fiat, ao «faça-se». O fiat de Maria, tal como o que Jesus nos ensinou no Pai-nosso - «Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu» (Mt 6,10) - é um abandono confiante e um desejo alegre de fazer a vontade de Deus. Com o seu fiat, ela recapitula em si toda a multidão dos obedientes na fé do Antigo Testamento e inaugura o novo povo, pronto a escutar a voz de Deus que agora, na plenitude dos tempos, fala por meio do seu Filho.

A dinâmica do caminho interior de Maria resulta ainda mais clara se tomarmos em consideração o confronto intencional feito por Lucas entre duas anunciações: a Zacarias (1,5-22) e a Maria (1,26-38). Zacarias, ancião e estimado, sacerdote, homem justo, representante ideal da religiosidade veterotestamentária, é surpreendido pela aparição do anjo em Jerusalém, no templo, durante o culto. Homem santo, lugar santo, tempo santo: tudo sublinha a sacralidade e a solenidade do evento. Maria, ao contrário, uma desconhecida donzela de Nazaré, cidade desprezada, da qual nada de bom poderia vir (cf Jo 1,46), surpreende-se com a visita do anjo na quotidianidade simples e doméstica. Mas Deus inverte as posições. O anjo entra «em sua casa»: é Maria, na realidade, o templo do Altíssimo. Ela «encontrou graça diante de Deus», recebe gratuitamente o dom divino, não por causa da sua observância da lei ou em resposta à sua oração de petição, como acontece no caso de Zacarias. Também a conclusão das narrativas é diferente: Zacarias fecha-se no seu mutismo, isolado, porque quem não toma parte de todo o coração no desígnio de Deus e não se deixa envolver de forma apaixonada nem sequer pode falar dele. Ao contrário, Maria acredita, abre-se e torna-se colaboradora de Deus na salvação do mundo. Na tradição iconográfica, Maria é com frequência representada como a platytera (do grego mais ampla), a pequenez que hospeda o infinito. Aquele que os céus não podem conter decide habitar no seu seio. É o Espírito que a torna “ampla”, cobrindo-a com a sua sombra, enchendo-a de graça, carregando-a de dinamismo e de paixão. Isso vê-se pelo facto de ao episódio da anunciação se ligar em linha de continuidade o da visitação. À expressão: «o anjo retirou-se de junto dela», segue-se imediatamente: Maria «pôs-se a caminho» (Lc 1,38-39).

2. «Caminhar apressadamente» e «guardar tudo no coração»

A pressa do caminho para Ain Karim, tal como depois a solicitude nas bodas de Caná, mostram o estilo ativo, empreendedor, criativo, resoluto de Maria. O seu ir com pressa é imagem da Igreja missionária que, logo depois do Pentecostes, repleta do Espírito Santo, se põe a caminho para difundir a boa nova até aos últimos confins da terra. Paulo conhece bem esta pressa: «É o amor de Cristo que nos impele» (2Cor 5,14).

Maria não olha a distâncias, a possíveis perigos, não calcula o tempo, não mede a fadiga. O ardor do coração dá-lhe asas nos pés. Sente-se impelida por aquele Deus que leva dentro. O seu caminhar não é só movimento exterior: é um andar permanecendo no Senhor, um partir habitando n’Ele, um viajar levando-O dentro de si. É a força interior que move, orienta, envolve e dá sentido à ação exterior; é o silêncio que faz amadurecer a palavra. Ela une a contemplação no encontro com o mistério à ação concreta na experiência do serviço; põe em harmonia o maior entusiasmo por Deus e o maior realismo pelo mundo e pela história.

À solicitude e à laboriosidade exterior corresponde uma intensa atividade interior. Maria «guarda tudo no seu coração e medita» (Lc 2,19.51). Lucas quis sublinhar a atitude reflexiva e sábia de Maria face ao mistério repetindo esta frase. É uma expressão que abre profundas frestas sobre a vida interior de Maria. Ela, Virgem sábia, Virgem à escuta, é uma mulher de coração grande, capaz de guardar as «grandes coisas» nela realizadas por Deus na história, capaz de fazer memória das maravilhas de Deus, capaz de articular dentro de si o passado com o presente, transformando tudo em semente de futuro. Ela não compreende logo tudo, mas guarda tudo no seu coração, abre-se ao mistério deixando-se envolver e respeitando os ritmos da revelação histórica de Deus.
Jesus ensinará esta atitude reflexiva de Maria também aos seus discípulos: «Disse-vos isto para que, quando acontecer, vos recordei que vo-lo disse» (Jo 16,14). «A semente caída na terra boa são aqueles que, depois de ter escutado a palavra com coração bom e perfeito, a guardam e produzem fruto com a sua perseverança» (Lc 8,15).

Os discípulos de Jesus devem aprender de Maria, Mestra sapiente, o segredo da unificação vital entre interioridade e atividade, entre ser e fazer, entre crer e agir, entre oração e trabalho, entre memória e criatividade, entre concentração e difusão da palavra de Deus, entre «guardar tudo no coração» e caminhar apressadamente», entre o acolher o dom de Deus e o fazer-se dom para os outros.

3. «Ver um sinal» e «ser sinal» 

Maria parte de Nazaré e põe-se a caminho na sequência de um «sinal» recebido do anjo: «Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice» (Lc 1,36). Na modesta casa do sacerdote Zacarias, a anciã Isabel espera o filho dom de uma graça surpreendente. Este facto deve ser para Maria uma prova do poder de Deus para quem «nada é impossível» (1,37).

Quando Sara, mulher de Abraão, ria incrédula ao pensamento de poder ainda ser mãe na sua velhice, o Senhor fez-lhe esta pergunta: «Haverá alguma coisa que seja impossível para o Senhor?» (Gn 18,14). Isaías convida o povo desalentado e perturbado pelo sofrimento a confiar naquele que tudo pode: «Não, a mão do Senhor não é curta para salvar, nem o seu ouvido demasiado surdo para ouvir» (Is 59,1).
Maria caminha em direção à montanha animada pela confiança em Deus. Como depois dirá na explosão de alegria do Magnificat, o Senhor é para ela «Salvador», «o Omnipotente», um Deus que «se recorda da sua misericórdia» e a mantém «de geração em geração sobre aqueles que o temem» (Lc 1,47.49-50).  
A confiança de Maria sai reforçada pelo «sinal» que Deus lhe ofereceu, mas, na realidade, ela mesma é um sinal de Deus dado à humanidade, «um sinal de esperança e de consolação» (Lumen Gentium 68). Maria, com efeito, assinala a aurora que anuncia o nascer do sol, assinala o irromper da salvação na história, assinala «a plenitude do tempo» (Gal 4,4). Enquanto Isaac, o menino de Sara, e João, o menino de Isabel, trazem a mensagem de que Deus tudo pode, o menino de Maria é o Deus que tudo pode, o Deus omnipotente feito homem frágil e escondido.

No caminho de fé de Maria há uma circularidade entre o descobrir o sinal de Deus nos outros e ser o sinal de Deus para os outros. Trata-se da maravilhosa solidariedade entre os crentes. O encontro de Maria e de Isabel é revelador no esplendor da sua beleza.
Maria e Isabel: duas mulheres voltadas para o futuro do seu seio, duas mulheres que guardam dentro de si um mistério inefável, um milagre estupendo. A consciência de ser objeto de particular predileção por parte de Deus une-as, a missão comum de colaborar com Deus num projeto grandioso entusiasma-as e fá-las explodir em bênção e em cântico de louvor, a experiência da maternidade prodigiosa torna-as solidárias. O prodígio de Deus em Isabel é para Maria um «sinal» que a ajuda a pronunciar o seu fiat; o prodígio de Deus em Maria é «sinal» para Isabel, um sinal que suscita nela uma confissão de fé. Assim as duas mulheres são, uma para a outra, lugar em que descobrem Deus, epifania da sua grandeza e motivo para O louvar e agradecer.
Ao reconhecer-se reciprocamente como «sinal» de Deus, a sua comunicação, densa de intuição e de entendimento profundo, permeada de respeito pelo mistério, torna-se bênção, torna-se cântico e poesia. O confronto recíproco na fé faz brotar a profecia recíproca, animada pela força do Espírito. Juntamente, ambas, tornam-se sinal da solidariedade de Deus com toda a humanidade.

4. Do fiat ao magnificat

Enquanto Maria percorre apressadamente as vias tortuosas da montanha, dentro dela desencadeia-se um itinerário interior de fé que vai da adesão dócil do fiat à explosão alegre do Magnificat, do ser visitada por Deus ao ser visita de Deus para os outros.
Subindo a montanha, Maria sente que não está só. O Filho de Deus está presente, escondido nela. A saudação do anjo em Nazaré, «o Senhor está contigo», que Maria tivera dificuldade em compreender, agora torna-se experiência real e convicção profunda. Maria, Mãe do Deus-conosco, é agora a arca da nova aliança, a nova morada de Deus, nova transparência da presença divina entre os homens, novo motivo de alegria para todos.

Com o seu caminhar pelas vias incómodas para ir ter com o outro a sua casa, Maria inaugura o estilo de Deus, o estilo de «sair», o estilo de serviço, de rebaixamento, de solidariedade para com quem tem necessidade. Nela o Deus incarnado faz-se o Deus que entra na trama humana e se torna presente também na esfera do quotidiano. A salvação adquire tonalidade doméstica. «Hoje quero ficar em tua casa», «Hoje a salvação entrou nesta casa» (Lc 19, 5.9): isto que Jesus dirá mais tarde no encontro com Zaqueu é de algum modo realidade antecipada por meio de Maria.
Maria leva alegria e esperança. Da Galileia à Judeia faz o mesmo percurso que mais tarde Jesus fará. Caminhando apressadamente pelos montes, ela evoca o célebre texto profético: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que apregoa a boa-nova…» (Is 52,7). A boa-nova levada por Maria transborda alegria contagiante, faz exultar um menino no seio materno, torna felizes dois anciãos. «Jovens e velhos partilharão do seu júbilo. Converterei o seu pranto em exultação, hei de consolá-los e aliviá-los das suas penas» (Jer 31,13). Os meninos que nascem e os anciãos que chegam à plenitude da sua vida encontram-se e unem-se em exultação, louvando o mesmo Deus «amante da vida» (Sab 113,9).
Ao longo de toda a sua vida, Maria continua a multiplicar e a difundir por toda a parte a alegria pura de que está inundada, aquela alegria recebida da saudação do anjo «Alegra-te, Maia» e tornada mais interior e profunda pelo seu fiat.
No nascimento de Jesus esta alegria estende-se aos pastores de Belém através do anúncio do anjo: «Anuncio-vos uma grande alegria, que será para todo o povo» (Lc 2,10). Levando Jesus ao templo, faz ainda estremecer de alegria o velho Simeão e a profetiza Ana. Em Caná, a alegria não vem a faltar no banquete das bodas graças à intercessão de Maria junto de seu Filho. A Maria, portadora da Boa Nova e mãe do Deus da alegria, poder-se-ia aplicar a palavra do salmista: «Onde passas, brota a abundância […], tudo canta e grita de alegria» (Sal 65, 12-14).

Do fiat ao magnificat torna-se, portanto, itinerário exemplar de todo o cristão que faz a sua peregrinação da fé passando da adesão inicial ao projeto de Deus ao pleno gozo da beleza deste projeto, através de uma gradual «saída»: o serviço, a gratuidade do quotidiano, o ir com solicitude ao encontro de quem precisa, o encontro de amizade, o esforço missionário de levar Jesus a casa dos outros, o anunciar a boa nova com alegria suscitando alegria de salvação na juventude que se abre à vida.

5. «Envolvê-lo em panos” e «buscá-lo com ânsia»

Na narrativa do nascimento de Jesus, Lucas refere o gesto delicado de Maria: «Deu à luz o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura» (Lc 2,7). É um gesto simples que exprime todo o afeto materno, terno e respeitoso de Maria para com este menino que é filho de Deus e filho seu. O anjo que anunciará a boa notícia do nascimento do menino aos pastores dar-lhes-á isto como sinal: «encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura (Lc 2,12). Vinte séculos passaram e ainda hoje nas nossas cenas natalícias o menino se apresenta com este sinal do amor da mãe.
Em Belém, Maria juntamente com José encontra-se envolvida neste mistério, desde sempre escondido na mente de Deus e agora tornado realidade diante dos seus olhos: «E o Verbo fez-se homem e veio habitar conosco» (Jo 1,14). Maria e José são as primeiras testemunhas deste nascimento, ocorrido em condições humildes e pobres, primeiro passo daquele «aniquilamento» (cf Fil 2,5-8) que o Filho de Deus livremente escolhe para a salvação de toda a humanidade. E este menino é confiado ao seu cuidado e educação. O amor terno da mãe, expresso no momento do nascimento, acompanhará o filho em todas as fases da vida.

O longo período da vida escondida em Nazaré, durante o qual Jesus se prepara para a sua missão messiânica, é resumido por Lucas em poucas palavras. Ele narra um único episódio da vida de Jesus adolescente: o da Páscoa em Jerusalém, quando Jesus tinha doze anos. A narrativa é introduzida por dois versículos que sublinham a ideia do crescimento de Jesus: «O menino crescia e robustecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com Ele» (Lc 2,40). «Jesus crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lc 2,52). A viagem à cidade santa quando Jesus tinha doze anos marca uma etapa do crescimento de Jesus: é a antecipação de outra viagem a Jerusalém, que culminará na sua Páscoa.
O episódio assinala também o crescimento da mãe. Reencontrado Jesus no templo ao fim de três dias, Maria pergunta-lhe: «Filho, porque procedeste assim conosco? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!» (Lc 2,48). No «porque» de Maria está o resumo de tantos “porque” da humanidade perante o Deus misterioso: a sua ânsia exprime a angústia de tantas pessoas que penosamente buscam a Deus. À pergunta da mãe, Jesus responde com duas perguntas: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?» (Lc 2,49). Ele tem um «deve» no desígnio do Pai: com o crescimento em idade e em sabedoria cresce sobretudo na consciência da sua missão. Também Maria deve crescer no acolhimento da identidade de Jesus – este filho que ela envolveu em panos ao nascer não é só seu filho – e cresce na consciência de ser também ela depositária do mistério de Deus; sabia-o desde o momento do anúncio do anjo, mas agora tudo aparece mais vivo e real e, ao mesmo tempo, mais duro e mais incompreensível. Ao lado de seu Filho, também Maria tem um «deve» relativamente às coisas do Pai. Mãe e Filho crescem juntamente no apoio recíproco para realizar o desígnio do Pai.

6. Do fiat ao facite

Maria tornou-se Mãe de Deus porque «acreditou» no cumprimento das palavras do Senhor» (Lc 1,45): é a interpretação do fiat de Maria feita por Isabel, sob a inspiração do Espírito Santo. Faz-lhe eco Agostinho quando diz: Maria, cheia de fé, concebeu Cristo no coração antes de O conceber no seio». À plenitude de graça por parte de Deus corresponde a plenitude de fé por parte de Maria.
Completamente entregue a Deus, empenhada em avançar constantemente na «peregrinação da fé», Maria sintonizou lenta e profundamente com Deus. Pela sua viva fé, chega a um profundo entendimento com Ele, a uma sintonização de todo o seu ser com a esfera divina, consegue ter uma profunda intuição do pensamento de Deus, saber discernir espontaneamente a sua vontade, sentir palpitar dentro de si o coração de Deus. A Epístola aos Hebreus, elogiando a fé dos antepassados de Israel, diz de Moisés que viveu «como se visse o invisível» (Heb 11,27). Assim Paulo, tendo atingido um grau de união com Cristo que podia dizer «já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gal 2,20), afirma sem retórica e sem pretensão: «Nós temos o pensamento de Cristo» (1Cor 2,16). Tudo isto pode ser dito de Maria. Em Caná da Galileia encontramo-la assim, simples, discreta, confiante ao lado do seu Filho, segura de ser atendida porque intimamente sintonizada com Ele.

Em Caná, Maria assume um papel profético. É «porta-voz da vontade de Deus, indicadora daquelas exigências que devem ser satisfeitas, a fim de que o poder salvífico do Messias possa manifestar-se» (Redemptoris Mater 12). As duas frases pronunciadas por Maria em Caná: «Não têm vinho!» (Jo 2,3) e «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5) realçam esta dimensão. Maria lê em profundidade a história humana, identifica os problemas ainda ocultos, recolhe os gemidos ainda não verbalizados, vislumbra o sofrimento ainda sem nome. Ela descobre o nó essencial da dificuldade e apresenta-o ao seu Filho, o único que pode desatá-lo (É a imagem que tanto agrada ao Papa Francisco: Maria que desata os nós, pode aqui encontrar uma ligação bíblica). E entretanto prepara os servos para o acolhimento da ajuda divina com uma indicação segura.

«Fazei o que Ele vos disser» é uma das poucas expressões pronunciadas por Maria no Evangelho, a única dirigida aos homens, que, por isso, com razão, é considerada «o mandamento da Virgem». É também a última palavra registada no Evangelho, como que «testamento espiritual». Depois disto Maria não voltará a falar; disse o essencial abrindo os corações a Jesus, só Ele tem «palavras de vida eterna» (Jo 6,68). Nesta expressão de Maria percebem-se os ecos da fórmula da aliança do Sinai. Como conclusão da aliança, o povo promete: «Faremos tudo o que o Senhor disse» (Ex 19,8; 24,3.7; Dt 5,27). Maria não só personifica Israel obediente à aliança, mas é também aquela que induz à obediência, agora não já à aliança, mas a Jesus, em quem tem início uma nova aliança e um novo povo. Isto aparece com maior evidência se lermos esta frase de Maria em paralelo com as últimas palavras de Jesus Ressuscitado no Evangelho de Mateus: «Fazei discípulos de todos os povos […] ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado» (Mt 28,19).

Maria, portanto, leva a seguir Jesus, a obedecer à sua palavra e a considerá-l’O como referência absoluta. Maria ajuda a formar a comunidade nova de Jesus, antes, ajuda Jesus a fazer amigos no sentido que Ele mesmo disse: «Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando» (Jo 15,14).

O «Fazei o que Ele vos disser» pronunciado por Maria não é um convite teórico, abstrato, mas uma exortação amadurecida pela experiência pessoal. A palavra só chega ao coração e à vida do interlocutor se brotar do coração e da vida de quem fala. Maria, especialista em confiar-se à palavra de Deus, pode agora ajudar outros a fazer o mesmo. A sua fé é contagiante: o fiat que Ela viveu em profundidade torna-se um facite convincente dirigido a outros.

Do fiat ao facite: só um profundo entendimento com Deus e uma sábia compreensão da realidade do mundo podem dar eficácia às nossas palavras e ações. O facite com que ajudamos os outros, em particular os jovens, deve brotar sempre do nosso fiat pessoal de adesão a Deus.

7. De «Eis que conceberás um filho» a «Eis o teu filho»

Maria, a Theotókos, a Mãe de Deus, é a epifania de um dos mistérios, dos maiores paradoxos do cristianismo, das surpresas de amor mais desconcertantes de Deus feitas à humanidade. A experiência única e prodigiosa de gerar na carne o Autor da vida encheu de assombro Maria. O seu Magnificat é, de facto, todo ele uma exclamação de maravilha e de júbilo: «Grandes coisas fez em mim o Omnipotente». Isabel, envolvida na sua mesma estupefação, chama-lhe «mãe do meu Senhor». A Igreja reconhece neste mistério o primeiro e fundamental dogma sobre Maria e ao longo dos séculos contempla-o na liturgia. Um antigo responsório do Natal exclama: «Aquele que os céus não podem conter, encerrou-Se nas tuas entranhas, feito homem». Nem o raciocínio concetual, nem os hinos e os poemas, nem os sons e música, nem as cores e a arte conseguem exprimir adequadamente a grandeza deste mistério.

O ser mãe para Maria não é, porém, uma identidade estática que se adquire de uma vez para sempre. Ao longo da sua «peregrinação da fé» fez um caminho de crescimento e de amadurecimento na sua maternidade vivendo toda uma gama de sentimentos maternos. É a espera silenciosa no contemplar o lento revelar-se do segredo dentro de si, a alegria interior no nascimento e o amor e ternura para com o filho recém-nascido, a satisfação e a ufania em apresentá-lo aos pastores e aos magos. É a dor da fuga e do exílio para proteger e salvar a vida daquele que é a Vida do mundo. É a doçura da intimidade nos anos de Nazaré. É depois a experiência difícil e desconcertante da perda de Jesus no templo aos doze anos. Também no decurso da vida pública de Jesus a união da mãe com o filho continua a desenvolver-se e a aprofundar-se. Com sobriedade e discrição, Maria está presente «não como uma mãe ciosamente voltada só para o próprio Filho divino, mas sim como aquela Mulher que, com a sua ação, favoreceu a fé da comunidade apostólica em Cristo e cuja função materna se dilatou, vindo a assumir no Calvário dimensões universais» (Marialis cultus 37).
Tal como a «peregrinação da fé» culmina para Maria no evento pascal do Filho, assim também o seu caminho de maternidade. João Paulo II fala de uma «nova maternidade de Maria», que é fruto do «novo amor», que nela amadureceu definitivamente aos pés da cruz, mediante a sua participação no amor redentor do Filho» (Redemptoris Mater 23). Já Agostinho dela falava de modo análogo refletindo sobre Maria: Mãe não só da Cabeça, mas também dos membros do corpo místico de Jesus gerado da sua morte redentora. Elevado sobre a cruz, o Filho de Maria revela-se «o primogénito de muitos irmãos» (Rm 8,29); à sua volta reúnem-se em unidade todos «os filhos dispersos de Deus» (Jo 11,52), e Maria descobre-se mãe de uma multidão de filhos. É Jesus que lhos confia. Em Nazaré, Maria tinha iniciado o seu caminho de maternidade aceitando o projeto misterioso de Deus: «Conceberás um Filho»; agora é este Filho que lhe propõe uma nova maternidade universal. Em Caná, Maria tinha intervindo fazendo de mediadora entre o seu Filho e os homens; agora é o seu Filho que faz de mediador entre ela e os homens dizendo-lhe: «Mulher, eis o teu filho!». A narrativa de João termina assim: «E desde aquele momento, o discípulo recebeu-a em sua casa» (Jo 19,27). Desde aquele momento, enquanto a humanidade redimida acolhe a Mãe, Maria acolhe cada filho entregue pessoalmente pelo seu Filho e introdu-lo no seu coração materno, para sempre.
Logo após a ascensão de Jesus, exerce a sua maternidade realizando a vontade de seu Filho. Lucas oferece-nos o belíssimo texto no início dos Atos: depois da ascensão de Jesus os onze apóstolos regressaram a Jerusalém à espera do Espírito prometido e «todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus (At 1,14). Lucas quer realçar a continuidade entre o Jesus histórico, nascido por obra do Espírito com a colaboração de Maria, e o nascimento da Igreja por obra do mesmo Espírito e com a mesma colaboração de Maria. Aquela que concebeu o Filho por obra do Espírito Santo “concebe” agora o corpo místico de seu Filho no acolhimento do Espírito. A Mãe, que iniciou Jesus no seu caminho terreno, acompanha agora a Igreja no seu peregrinar no mundo e na história.

Conclusão


Associar o “peregrinar” de Maria à nossa experiência salesiana é algo espontâneo. Na preparação desta proposta de reflexão vinham-me continuamente à memória evocações da vida de Dom Bosco, de Madre Mazzarello e de tantos irmãos e irmãs da Família Salesiana. A sintonia entre o espírito de Maria e o espírito salesiano é forte e não pode ser diversamente, dado que Maria é a Mãe e Mestra da Família Salesiana. Não tento aqui ilustrar o confronto com receio de prejudicar a sua beleza harmónica, e espero que as palavras ditas não invadam demasiado aquele espaço em branco, espaço carregado de potencialidades de estupefação, de descoberta, de entusiasmo e de renovada paixão.

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